Gramsci e histórias em quadrinhos:

Mafalda e a construção de sentidos contra-hegemônicos

                                                                   Carlos Eduardo Rebuá Oliveira[1] 

"E não é que neste mundo tem cada vez

mais gente e cada vez menos pessoas?”

(Mafalda)

“O problema da grande família humana

 é que todos querem ser o pai!”

(Mafalda)

             No pensamento marxista, o conceito de hegemonia figura entre os mais polêmicos e difíceis de definir. Lênin, Stálin, Bukharin, Mao Tse-tung, Gramsci, Perry Anderson representam nomes importantes que dedicaram à hegemonia uma atenção especial, permitindo interpretá-la como liderança e/ou como domínio.

            No entanto, o pleno desenvolvimento deste conceito como conceito marxista deve-se, sobretudo, a Antonio Gramsci (1891-1937), intelectual italiano fundador do partido comunista daquele país e um dos adversários políticos mais qualificados de Mussolini. Considerado por muitos estudiosos de Gramsci seu conceito chave e sua maior contribuição à teoria marxista, a “hegemonia gramsciana” era ainda um conceito pouco desenvolvido antes de sua prisão pelo Estado fascista, em 1926. Da concepção pré-cárcere de hegemonia como uma estratégia da classe operária e um sistema de alianças que o operariado deve dar início com o objetivo de derrubar o Estado burguês, Gramsci passa a compreender a hegemonia, já nas anotações da prisão (que dariam origem à sua maior obra, os Quaderni), como o modo pelo qual a burguesia estabelece e mantém sua dominação. Analisando historicamente a Revolução Francesa e o Risorgimento italiano, Gramsci vai buscar entender como se construiu nestes países a chegada da burguesia ao poder e, sobretudo, a manutenção deste poder, definindo o Estado como força mais consentimento.

            Gramsci supera a teoria leninista do Estado, uma vez que amplia este conceito, defendendo que a hegemonia não se reduz à força econômica e militar, mas resulta de uma batalha constante pela conquista do consenso no conjunto da sociedade. Segundo o pensador sardo, a hegemonia corresponde à liderança cultural e ideológica[2] de uma classe sobre as demais, pressupondo a capacidade de um bloco histórico (aliança de classes e frações de classes, duradoura e ampla) dirigir moral e culturalmente, de forma sustentada, toda a sociedade (Moraes, 2009, p.35).  

            Como categoria dinâmica, a hegemonia pressupõe negociações, compromissos, renúncias por parte do grupo dirigente que se pretende hegemônico. A base material da hegemonia é construída a partir de concessões e reformas com as quais se mantém a liderança de uma classe (ou frações de classe) e pelas quais outras classes (aliadas ou subordinadas) têm suas reivindicações atendidas. Para Gramsci, a hegemonia não pode ser garantida sem desconsiderar demandas mínimas dos “de baixo”, sendo fundamental a classe dirigente saber ceder, saber realizar sacrifícios no intuito de preservar este instável equilíbrio de forças. Diz Gramsci, que a conservação da hegemonia:

 “pressupõe indubitavelmente que sejam levados em conta os interesses e as tendências dos grupos sociais sobre os quais a hegemonia será exercida, que se forme um certo equilíbrio de ordem econômico-corporativa, isto é, que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa.” (Gramsci, 2002, vol. 3, p. 47)

 Entretanto, o comunista italiano reitera que estas concessões são sempre assimétricas, ou seja, que existe um grupo que dirige e outros que são dirigidos, logo, a renúncia da classe hegemônica não pode nunca permitir um desequilíbrio em sua relação com a classe subalterna, e mais que isso, um desequilíbrio a nível estrutural (forças produtivas e relações de produção):

 “(...) é indubitável que tais sacrifícios e tal compromisso não podem envolver o essencial, dado que, se a hegemonia é ético-política, não pode deixar de ser também econômica, não pode deixar de ter seu fundamento na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica.” (Ibidem, pp. 47-48)

             Referência no estudo da hegemonia em Gramsci, Luciano Gruppi defende que o marxista italiano apresenta este conceito em toda a sua amplitude, ou seja, “como algo que opera não apenas sobre a estrutura econômica e sobre a organização política da sociedade, mas também sobre o modo de pensar, sobre as orientações ideológicas e inclusive sobre o modo de conhecer.” (Gruppi, 1978, p. 3)

            Em outras palavras, Gruppi destaca que a hegemonia só é possível se a liderança de uma classe se dá também no plano da superestrutura (num viés marxista mais ortodoxo), se ela é uma liderança cultural e ideológica que produz consenso e adesão à sua agenda. Não basta a ação coercitiva se o objetivo é um domínio por completo, um domínio hegemônico.

            De acordo com Gruppi, a hegemonia de uma determinada classe se torna possível quando esta classe,

 “dominante no plano econômico, e, por isso, também no político, difunde uma determinada concepção de mundo; hegemoniza assim toda a sociedade, amalgama um bloco histórico de forças sociais e de superestruturas políticas por meio da ideologia. Essa hegemonia entra em crise quando desaparece sua capacidade de justificar um determinado ordenamento econômico e político da sociedade.” (Ibidem, p. 90)

              Corroborando a defesa de Gramsci, de que não há hegemonia se a liderança ideológico/cultural de uma classe não é consensual, se ela não se sustenta e é legitimada no modo de pensar dos indivíduos, Dantas afirma que

 “Na história da luta de classes, a hegemonia de uma classe depende, essencialmente, do modo como seu domínio sobre a produção material e sobre o conjunto das forças produtivas e destrutivas se desenvolve como domínio sobre a produção e a circulação de idéias, sobre a formação da consciência socialmente determinada e, conseqüentemente, sobre o conjunto de organizações e instituições da sociedade civil e sobre o poder político do Estado.” (Dantas, 2008, p. 92)       

            Finalizando, é imprescindível pontuar que as formas da hegemonia nem sempre são as mesmas, variando de acordo com a natureza das forças que a exercem. (Moraes, op. cit., p. 36), e que a hegemonia nunca é “completa”, o poder de uma classe nunca está garantido completamente.

 

Mafalda e sua turma

 Das histórias em quadrinhos que alcançaram notoriedade fora de seus países de origem, talvez nenhuma tenha conseguido ser tão conhecida por crianças, adultos e idosos, sem ser vendida em bancas de jornal, em larga escala, como Mafalda.

Criada em 1964 (inicialmente para uma propaganda de uma marca de eletrodomésticos), Mafalda é a personagem de hq’s (abreviação comum para histórias em quadrinhos) mais popular da Argentina. Sua curta trajetória vai de setembro de 1964 a junho de 1973, através de três publicações: Siete Días Ilustrados, Primera Plana e El Mundo.

Os interlocutores de Mafalda também representam personagens extremamente ricas, como por exemplo, Susanita, a “burguesinha” fofoqueira, egoísta e briguenta cujo principal projeto de vida é casar e ter muitos filhos. Não se preocupa com os problemas do mundo, pois o que importa mesmo é a “aparência” e a segurança de sua vida calculada; Felipe, o sonhador de imaginação fértil, vidrado em hq’s de aventuras, preguiçoso, tímido, apaixonado pela Brigitte Bardot e que não gosta de ir à escola (é o personagem com o qual Quino mais tem identidade); Manolito, o empresário-mirim da turma cuja visão de mundo é norteada fundamentalmente pelo capital, principalmente quando tenta “vender” a qualquer custo os “singulares” produtos do Armazém de seu pai, o Don Manolo, onde trabalha. Ambicioso, bruto, materialista, fã dos homens de Wall Street, porém de grande coração. Como Susanita, Manolito tem seu projeto de vida definido: ser dono de uma rede de supermercados! Além disso, odeia as opiniões politizadas de Mafalda. Completam a turma o simpático Miguelito, um filósofo vaidoso ao extremo que deseja o estrelato mais do que tudo; a pequena Libertad, uma miniatura de Mafalda, filha de hippies, entusiasta das revoluções, da cultura e das reivindicações sociais (é a última a aparecer na turma); Guile, o irmão caçula de Mafalda, que descobre um novo mundo a cada engatinhada e frequentemente a surpreende com suas “transgressões”; e os pais de Mafalda, típico casal de classe média latino-americana, passivos, limitados intelectualmente, endividados – o pai é funcionário de uma companhia de seguros e a mãe é dona-de-casa.

A filósofa de seis anos, invocada, utópica e questionadora das injustiças do mundo, de cabeça grande e laço de fita maior ainda, libertária, politizada, fã de Beatles e avessa a qualquer tipo de sopa, apesar de não ter sido “terceirizada” por Quino (como fizeram Mauricio de Souza, com a Turma da Mônica, e Schulz, com os Peanuts), continua “na moda”, desde a década de 1970, sendo ainda bastante utilizada em livros didáticos, sejam eles de Gramática, História, Geografia ou Filosofia.

O ensino de História é um dos focos principais da dissertação desenvolvida pelo autor (intitulada “Mafalda na sala de aula: quadrinhos, ideologia e contra-hegemonia no ensino de História.”). A atuação como professor de História[3] no Ensino Fundamental, Médio e também em Pré-Vestibulares me permitiu confirmar que o texto escrito ainda é hegemônico nas relações de ensinar-aprender, com as outras linguagens sendo geralmente consideradas secundárias, complementares. Apresentar uma atividade com quadrinhos ainda soa muitas vezes, da criança ao adulto, como uma atividade apenas “divertida”, como algo que o professor preparou porque não teve tempo para elaborar algo mais “denso”, que “tenha a ver” com os conteúdos a serem trabalhados.

Em suma, a partir de reflexões sobre o ensino de história e seus desafios no cotidiano em sala de aula, e destacando a especificidade da linguagem das histórias em quadrinhos, surgiu a idéia de desenvolver uma pesquisa acerca da utilização das tiras de Mafalda como fecundo e diferenciado recurso didático, defendendo, a partir da perspectiva marxista, sobretudo com Antonio Gramsci, que a personagem argentina e sua turma atuam de maneira contra-hegemônica, criticando as estruturas hegemônicas de poder (como a escola e as forças armadas) e apontando para novos sentidos.

 

Quino e a “contra-hegemonia Mafaldiana

            Antes de qualquer análise da contra-hegemonia em Mafalda, é importante explicar a opção pela palavra “contra-hegemonia”, ao invés de “outra hegemonia”, por exemplo. Apesar da teoria gramsciana não fazer referência à contra-hegemonia, inúmeros marxistas (como os brasileiros Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho, Virgínia Fontes, Mauro Iasi), intérpretes da obra do filósofo italiano, utilizam tal palavra em diversos de seus escritos, na perspectiva de construir semanticamente um termo comum e de “fácil leitura” pelos leigos, e de sobretudo traduzir (e demarcar) em termos de luta ideológica e material, a posição dos comunistas diante da hegemonia do capital.

Ainda que, em termos linguísticos, “contra-hegemonia” possa significar “ser contrário a qualquer tipo de hegemonia”, a palavra, que se estabeleceu pelo uso (o que não a exime da crítica), significa que a luta é contra uma hegemonia estabelecida (num “equilíbrio instável”), uma luta que objetiva a construção de uma nova hegemonia, dos “de baixo”, dos usurpados pelo modo de produção capitalista.

Desta forma, longe de incorporar um neologismo, utiliza-se um conceito legitimado por diversos intelectuais importantes dentro do campo marxista, que fazem uso da “contra-hegemonia” querendo significar uma posição estratégica, um “lugar” ideológico, e logo, material, na luta contra o capital.

           Mafalda “nasceu” numa década bastante conturbada - a década de 1960 – e viu começar a década seguinte, também turbulenta (até 1973). Argentina, Mafalda “nasceu” durante o governo de Arturo Frondizi (1958-1962), derrubado em 29 de março de 1962, por um dos seis golpes civil-militares pelos quais aquele país passou no século passado. Durante sua vida, Mafalda ainda presenciaria a chamada Revolução Argentina, iniciada através do golpe de 28 de junho de 1966 que colocou no poder os generais Onganía, Levingston e Lanusse e deu origem à segunda ditadura mais sangrenta da Argentina (perdendo somente para a ditadura do triunvirato Videla, Massera e Agosti, iniciada em 1976 e intitulada Processo de Reorganização Nacional).

            Em seu curto período de vida, Mafalda e sua turma “assistiriam” a inúmeros acontecimentos significativos, uns mais e outros menos felizes para a esquerda mundial. Do lado das “perdas”, a caça aos comunistas pós-Revolução Cubana, que deu início a uma carnificina sem precedentes na América Central, sob a égide de Washington; as ditaduras civil-militares na América do Sul, como o caso brasileiro (1964-1985), também com forte ingerência estadunidense; o assassinato de líderes como Martin Luther King e Malcom X (ambos em 1965), bem como o de Che Guevara (1967), na Bolívia, com participação da CIA. Na contabilização das “vitórias”, o Maio de 1968, sob o lema “a imaginação no poder”, que “incendiou” a juventude daquele período, além do Festival de Woodstock (1969), com seu pacifismo à moda flower power; a Primavera de Praga, que tentou construir uma democracia socialista na Tchecoslováquia de Dubcek; a “derrota” estadunidense no Vietnã, à custa de milhares de vidas dos dois lados; a eleição de Salvador Allende no Chile (1970), o primeiro marxista eleito democraticamente nas urnas. Quanto aos acontecimentos mais frívolos (para alguns!), a polêmica chegada do “homem” estadunidense à Lua, o fim dos Beatles (este fato afetou profundamente Mafalda...), o tricampeonato da seleção brasileira de futebol no México (o que também não deve ter agradado aos portenhos como Mafalda e sua turma!).

            Após ser perguntado se é possível modificar algo através do humor, Quino afirmou certa vez: “Não. Acho que não. Mas ajuda. É aquele pequeno grão de areia com o qual contribuímos para que as coisas mudem”.[4] Apesar da resposta categórica, é fato que a obra de Quino contribuiu (e contribui) bastante para a crítica do senso comum, para a politização através da arte e sobretudo para uma leitura das décadas de 1960 e 1970 que, longe de ser neutra ou contemplativa, se posiciona e questiona a todo momento os fatos, os costumes, a partir da visão que Quino tem do mundo, visão que propõe, em muitas circunstâncias, leituras contra-hegemônicas.

            Distinguir o discurso da hegemonia e o da contra-hegemonia em Mafalda significa buscar identificar o que era hegemônico naquele período (a Guerra Fria, por exemplo) e a partir de então verificar de que maneira Quino se posiciona, em relação ao “hegemônico”, através das personagens e sua relação.

             A escolha das tiras a seguir (presentes nas obras Toda Mafalda e Mafalda Inédita), que subsidiam as discussões aqui levantadas, privilegiou o que se pode chamar de “tiras históricas”, isto é, mais afins com o ensino de História, com os temas que dizem respeito à História como disciplina escolar. Desta forma, obviamente atendendo a escolhas pessoais (e nunca neutras), optou-se por algumas tiras que abordassem temas como ditaduras civil-militares, democracia, capitalismo, burguesia, dentre outros.

            A seguir, as tiras escolhidas foram divididas de acordo com sua “afinidade temática”, a fim de facilitar a compreensão das análises. São tiras que mesmo bastante diferentes umas das outras, traduzem com maestria o olhar crítico de Quino e a possibilidade de se trabalhar em sala de aula com hq’s, problematizando a ideologia do establishment e tecendo interpretações contra-hegemônicas da realidade.

 a) Contra-hegemonia na escola

 Assim como Mafalda “vai” à escola através dos livros didáticos, a escola também “visita” Mafalda inúmeras vezes, em tiras extremamente críticas onde Quino constrói um panorama muito bem articulado da escola tradicional que freqüentou nos anos 40 na Argentina: autoritária, conteudista e excludente. Com isso, é possível afirmar que no caso da tira acima, Quino critica diretamente o sistema educacional da qual fez parte, utilizando Mafalda como um sujeito que atua de maneira contra-hegemônica (ainda que na década de 60, quando surge Mafalda, este modelo de escola não fosse mais hegemônico), ousando enfrentar uma estrutura monolítica de ensino onde a relação professor-aluno era de mão única.

Tira 1

 Uma hipotética aula de Geografia ou Matemática é construída por Quino na Tira 1, onde a professora apresenta à turma dados estatísticos sobre o planeta Terra (superfície total, porcentagem de água e população). Então eis que surge Mafalda, cuja curiosidade sempre coerente com a concepção de mundo que defende parece constranger a todos. A pergunta, “qual a porcentagem de seres humanos de verdade?”, parte do pressuposto que existem seres humanos de mentira”, o que na visão de Mafalda pode significar inúmeras coisas: os corruptos, os egoístas, os machistas, os gananciosos, os capitalistas selvagens, as mães que fazem sopa (numa alusão à sua própria!). Ao questionar a professora, Mafalda esboça um real interesse em saber quantos humanos são verdadeiros, para quem sabe vislumbrar alguma esperança de mudança deste mundo onde dialeticamente as minorias são as maiorias. Apesar de Mafalda não estar numa aula de História (foco principal da pesquisa), a tira pode perfeitamente ser utilizada por um professor da disciplina no intuito de trabalhar questões relevantes, como as que foram abordadas acima.

A pergunta de Mafalda não parece ter o intuito de deslegitimar a professora tampouco de atrapalhar a aula. A genialidade de Quino reside também no fato de que seus interlocutores são na maioria crianças, assim como ela, o que os “autoriza” a dizerem coisas que, num país massacrado por vários regimes civil-militares como a Argentina do XX, nenhum adulto poderia dizer. O fato de Mafalda ser uma menina (lembrando que Mafalda é produzida na década de 1960) corrobora, junto à sua tenra idade, o caráter contra-hegemônico da obra de Quino.

Mafalda constrói sua fala, em grande parte das tiras, de duas formas: ou a partir do questionamento dos adultos (geralmente seus pais), no intuito de dirimir as dúvidas que tiram seu sono, ou na interação com as outras personagens, de mesma idade, buscando entender o mundo que os cerca (por que existem guerras? por que a mãe trabalha em casa e o pai não?) a partir dos referenciais de que dispõem. Obviamente Mafalda não é um quadrinho infantil, dialogando diretamente com um público majoritariamente de adolescentes e adultos. Desta forma, a personagem de Quino oscila muitas vezes entre a caracterização de uma criança típica, com tudo que lhe possa ser atribuído (medo, ingenuidade, dependência dos pais), e uma criança excepcionalmente[5] lúcida, crítica e profunda conhecedora da realidade na qual está inserida, que discute de igual pra igual com as pessoas mais velhas, na maioria das vezes colocando-as em posição de “xeque-mate”.

 

b) A crítica da hegemonia militar

            Uma marca bastante nítida de Mafalda e sua turma é a referência recorrente aos temas das ditaduras, da repressão, dos “anos de chumbo” latino-americanos, contemporâneos do período em que foi produzida. Da ironia ácida ao humor mais fino, Quino consegue criticar profundamente o panorama político das décadas de 1960 e 1970 na Argentina, quando a repressão aos movimentos sociais, a censura, o genocídio, o sequestro, a vigilância extrema foram colocadas em prática por governos autoritários e burocráticos, ações que a historiografia identifica como “terrorismo de Estado”.

            Provavelmente, uma criança de seis anos na Argentina deste período não tinha conhecimento da conjuntura política, das disputas entre governo e opositores, mas é bem provável que tenha ouvido a sirene de um carro do exército ou visto um policial reprimir com truculência uma manifestação de estudantes ou uma greve. As duas tiras a seguir tratam deste assunto, estabelecendo uma crítica mordaz a partir do olhar atento e indignado de Mafalda, que assume um híbrido da criança “típica” e da “excepcional”, uma vez que se utiliza de metáforas para “ler” os fatos que assiste (como uma criança típica) mas constrói estas metáforas tendo clareza que os soldados servem para reprimir (Tira 2) e que o cassetete do policial ajuda no esmagamento das ideologias (Tira 3).

Tira 2

Tira 3

            A Tira 2 satiriza de forma genial a truculência do governo, ao comparar um grupamento motorizado das forças armadas, em alta velocidade, a um vidro de vitaminas, que tentará garantir a “força” do governo, postura hegemônica dos diversos governos militares latino-americanos da segunda metade do século XX. A Tira 3, de uma criatividade singular, revela apenas no último quadro o comentário que Mafalda fez com Miguelito, ao ver o cassetete de um policial (a utilização da palavra “pauzinho” e logo após, “ideologias”, corrobora a idéia de um híbrido entre a criança típica e a criança excepcional, assumidos por Mafalda). Segundo a perspicaz Mafalda, sua função nada mais é que destruir ideologias[6]. É possível deduzir que Mafalda constrói sua reflexão a partir da experiência, da realidade objetiva, isto é, que em outras circunstâncias ela deve ter assistido um vidro de vitaminas “fazer efeito” e/ou um pauzinho esmagador de ideologias fazendo “estragos”.

            Ambas as tiras atuam de maneira contra-hegemônica, pois criticam claramente a “hegemonia de coturnos” que tentou se estabelecer na Argentina por mais de uma vez, perseguindo inclusive diversos cartunistas que “ousaram” desafiar a “linha-dura”.

           

c) A crítica aos “‘ismos’ hegemônicos”[7] (capitalismo, individualismo, imperialismo e racismo)

 

A fonte primária deste trabalho (e da dissertação que se desenvolve) são as tiras de Mafalda, sobretudo as que estão compiladas na obra Toda Mafalda. Obviamente, é impossível analisar todas as tiras (mais de duas mil!), até porque não é este o objetivo de nenhum dos dois trabalhos. Entretanto, após algumas leituras, é possível verificar uma identidade entre as tiras, isto é, tiras que abordam mais de uma vez um mesmo tema (o que permite caracterizar as personagens e conferir uma seqüência às histórias), a aversão de Mafalda às sopas ou a propaganda insistente de Manolito de que o Armazém Don Manolo (de seu pai) vende mais barato.

Nestas leituras mais atentas de Mafalda, foi possível encontrar, dentro da perspectiva contra-hegemônica que se desenvolve aqui, a crítica de Quino ao que se convencionou chamar de “‘ismos’ hegemônicos”, na tentativa de agrupar numa mesma discussão a abordagem do cartunista portenho sobre temas importantes para o ensino de História: o capitalismo, o individualismo, o imperialismo (profundamente “íntimos”) e o racismo.

Nas quatro tiras a seguir, é possível verificar a criatividade de Quino, que é capaz de suscitar a reflexão de temas complexos, através de seis personagens diferentes (Mafalda, Felipe, Manolito, Susanita, Raquel, mãe de Mafalda, e Guile, seu irmão), num humor político refinado que explora, através do olhar infantil, estruturas, costumes, elementos do “mundo dos adultos”.

Sem dúvida não se defende aqui que uma hq possa abordar um tema em toda a sua complexidade, tampouco que é possível um professor substituir uma discussão (como muitos fazem), apresentando para a turma apenas uma tirinha e pedindo que eles redijam uma dissertação ou algo parecido. As hq’s podem servir de mote, como recurso didático, mas nunca como um substitutivo da teoria ou de análises mais densas e pormenorizadas.

Tira 4

Tira 5

Tira 6

Tira 7

            A Tira 4, protagonizada por Manolito, utiliza-se da metáfora da dança como prejuízo, dano, para criticar o capital financeiro, face hegemônica do capitalismo desde fins do século XIX, tendo em Wall Street um de seus endereços mais famosos. A tira faz parte de uma seqüência de histórias que tratam do tema dos Beatles, idolatrados por todas as crianças da turma, sobretudo por Mafalda, mas odiados pelo preconceituoso Manolito, que odeia homens de cabelos compridos. A despeito da enorme riqueza dos músicos de Liverpool, Manolito afirma em tom de ira, que sua admiração é pelos “caras da Wall Street”, os milionários de verdade, aqueles que realmente põem “todo mundo” pra dançar: jovens, velhos, homens, mulheres, crianças, asiáticos, latinos, africanos, dentre outros. No último quadro da tira, numa ironia cortante, Manolito com o dedo em riste ainda confere aos seus “ídolos” uma outra virtude: saber fazer “dançar” sem o uso de guitarras, algo impensável para uma banda de rock’n roll.

            Mais uma vez, confirma-se o fato de que Quino não escreve para o público infantil (que provavelmente não riria desta tira por não saber quem são os “caras de Wall Street”!), mas seu discurso “disputa” com ideologias sintonizadas por muitos adultos que não apenas naturalizam o capital, considerando-o um estágio intransponível do desenvolvimento histórico-social da humanidade (com alguns até afirmando que se trata do “fim” dos estágios!), chegando inclusive (os capitalistas mais ortodoxos), a defender que para que alguns gozem das benesses do mundo das mercadorias, do consumo, “outros” precisam “dançar”, sem guitarras, baterias, pandeiros ou qualquer outro tipo de acompanhamento.       

            Na quinta tira, Mafalda assume uma postura altamente individualista, algo não muito comum, a partir de uma conversa com Susanita. A tira é a seqüência de outras, que fazem menção à questão da superpopulação mundial. Susanita briga com Mafalda porque agora que o assunto da superpopulação “entrou” em sua cabeça (algo que não queria pois não se preocupa com nada além de seu umbigo), Mafalda não quer mais discuti-lo. As duas amigas vão se distanciando até que Susanita diz que a falta de alimentos será um grave problema quando houver superpopulação. Eis então que Mafalda associa automaticamente comida à sopa (comida que sua mãe prepara todos os dias e que ela odeia) e imagina (como de costume, de maneira rápida e fértil) que se faltarem alimentos faltará sopa, o que será uma maravilha, um mundo perfeito. No último quadro da tira, Mafalda passa pela cozinha onde sua mãe prepara uma comida (quem sabe uma sopa?!) e cantando alegremente dá um “oi” bem cínico para ela, imaginando que a mãe nem imagina a “notícia boa” que está por vir. A tira citada parte do pressuposto que o leitor conhece a ojeriza de Mafalda por sopas. Sem tal conhecimento, é possível deduzir isto, mas não com certeza.

            Na Tira 6 Quino trata do imperialismo estadunidense, tema menos recorrente nas tiras de Mafalda, em relação aos outros três citados. Numa história com fala somente no último quadro, Mafalda observa sua mãe amamentando Guile, seu irmão. Se no primeiro quadro, Mafalda está feliz, apreciando aquela cena, à medida que as onomatopéias “slgub” aumentam, a expressão de Mafalda muda do estado de admiração para o de espanto, o que a leva a perguntar à mãe, metaforicamente, se seu irmão caçula pensa que a mãe é a Venezuela, país rico em petróleo, e que ele é a Standard Oil Company, mais conhecida como Esso, empresa fundada pelo bilionário estadunidense Rockfeller e que na durante grande parte século XX representou, inclusive militarmente (a Guerra do Chaco, entre 1932 e 1935, segundo conflito que mais matou pessoas na América Latina, é o maior exemplo), os interesses imperialistas dos Estados Unidos.

Mafalda mais uma vez reúne tanto a característica de criança típica, por não saber o nome da companhia petrolífera, quanto a excepcionalidade que lhe é peculiar, por ser capaz de associar os “sglubs” lácteos de Guile aos “sglubs” petrolíferos de Washington. É notório o caráter contra-hegemônico desta tira, não porque esta crítica não era feita à época mas porque a crítica “aberta” à hegemonia dos Estados Unidos na década de 1960 e 1970, em relação à América Latina, era algo bastante subversivo, tendo em vista a perseguição que muitos jornalistas e cartunistas sofreram nas redações em que trabalhavam, por “ousarem” acusar o Tio Sam. Henfil e Ziraldo, ícones do humor gráfico no Brasil, comprovam esta afirmação.

A Tira 7, que trata do racismo, tem novamente Susanita como protagonista. Trata-se de uma tira simples e direta, onde a amiga de Mafalda (que segura uma revista com um negro na capa) nega que seja preconceituosa, dizendo que isso não passa de coisa da imaginação de Mafalda, para no final, na última tira, perguntar sem perceber seu racismo visceral, quando é que foi preconceituosa contra os “negros sujos”. A expressão de Mafalda fala por si!

O ponto alto da tira é justamente colocar em pauta a naturalização do racismo, atitude bastante recorrente não apenas na sociedade argentina (com um número quase nulo de negros), mas no Brasil também. É bastante comum a descrição de um negro vir acompanhada de um “mas” (“minha empregada é negra ‘mas’ é muito ‘limpinha’!”) ou de uma adjetivação (“era um negro bonito à beça!”), sem que o autor da frase se dê conta da visão racista que traz consigo.

           

d) A denúncia da hegemonia burguesa

Poucas hq’s que tratam do cotidiano (e até mesmo as mais “políticas”) construíram uma personagem tão rica, em termos de possibilidades, como a burguesinha Susanita. Quase todas as tiras em que a loirinha que vive discutindo com Mafalda aparece, constroem uma caracterização perfeita da classe que desde o século XVIII (e para alguns ortodoxos, desde o XVII) hegemoniza o Estado, sobretudo nos países ocidentais. A burguesia, segundo Marx, não pode existir sem “revolucionar os instrumentos de produção; portanto, as relações de produção; e assim o conjunto das relações sociais” (MARX & ENGELS, 2002, p. 28). A classe que guilhotinou o Antigo Regime, feudal e monolítico, que dessacralizou a política, subjugou o clero e a nobreza e manteve os extratos populares sob o manto da democracia liberal representativa; que garantiu na força das baionetas e no simbolismo das Constituições seu domínio sobre os demais grupos sociais, revolucionou não apenas as estruturas materiais da sociedade (a economia de mercado, por exemplo) como também transformou as dimensões simbólicas, forjando a unidade pelo nacionalismo, legitimando o liberalismo como fronteira ideológica e consolidando o capital como o alicerce das relações sociais.

A crítica à burguesia não é exclusividade de Quino (e aqui caberia um levantamento mais minucioso das experiências a respeito do tema), mas sem dúvida poucos conseguiram fazer isso em tão pouco espaço (numa tiragem que durou sete anos e não se tornou gibi de massa) e através de crianças (Schulz, com os Peanuts, e Watterson com Calvin, produziram uma obra riquíssima, mas onde a crítica circunscreve-se mais ao cotidiano da família, da escola, com algumas incursões mais “filosóficas” a respeito da sociedade, mais universalistas, especialmente em Peanuts).

Tira 8

            A tira acima (que poderia ser intitulada “a igualdade segundo a burguesia”) é de uma ironia lancinante e permite inúmeras leituras. Susanita, ríspida como de praxe, parte para o ataque à Mafalda, questionando sua concepção deturpada de igualdade. É bem típico da burguesia acusar a esquerda de que a igualdade que estes últimos defendem é a liberdade orwelliana, em A Revolução dos Bichos, onde todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Ainda que a crítica do escritor britânico estivesse direcionada para um “tipo” de esquerda, a esquerda stalinista que deturpou o socialismo soviético, ainda é bem comum encontrar esta visão restrita de igualdade em editoriais de jornais conservadores, em comentários de pessoas da tevê como Arnaldo Jabor, Boris Casoy ou José Nêumanne Pinto, ou até mesmo numa conversa informal na lanchonete da Universidade.

            Na concepção de mundo liberal, o conceito de igualdade é sempre relativo, isto é, depende de quem a reivindica e das concessões que terão de ser feitas para que ela seja possível. Sem dúvida alguma uma ONG como o Viva Rio defende a igualdade entre as pessoas, bem como Antônio Ermírio de Moraes e a Madonna. Mas basta alguém falar em classe social ou algum sociólogo ou professor de História discutir a questão das desigualdades sociais para todos se alarmarem, afirmando que classes sociais são “coisas muito difíceis de distinguir no mundo globalizado de hoje” e que o politicamente correto não é “desigualdade”, mas “diferença”.

            Um exemplo prático da mensagem contra-hegemônica de Quino nesta tira é a atual situação da burguesia na América Andina, com destaque para a Bolívia e a Venezuela. Tanto em Caracas como em Santa Cruz de La Sierra, os grupos econômicos e políticos que durante duzentos anos mantiveram seus países em condição de subserviência ao domínio estrangeiro, centralizando a riqueza (sobretudo na Bolívia), aumentando paulatinamente o fosso entre pobres e ricos e massacrando as populações nativas, ao assistirem a ascensão de governos progressistas (como no exemplo das elites chilenas em relação a Salvador Allende e brasileiras em relação a João Goulart), eleitos democraticamente e com uma ampla soma de votos, deram início a uma feroz campanha de desestabilização destes governos, fazendo acusações que vão desde as mais “baixas” até a discussão sobre a “igualdade da esquerda”, que privilegia seus pares em detrimento da “maioria”, da qual ela, a burguesia, acha que faz parte.

            É recorrente nos telejornais brasileiros a cobertura parcial e profundamente tendenciosa da realidade destes países, com matérias que entrevistam uma ex-dona de joalheria, que não tem mais condições de ir para Miami passar férias, ou reportagens que mostram uma “típica” boliviana de olhos azuis e pele branca, dizendo com sotaque em inglês que estão destruindo a “sua” Bolívia, ou ainda esbravejando, à la Susanita, que já que todos são iguais, não é justo ela ter que enfrentar uma fila no supermercado para comprar carne.

           

Considerações Finais

Antonio Gramsci nunca se distanciou da luta pela democracia, pela emancipação do homem, ainda que lutasse com papel e caneta dentro do cárcere fascista. Sua preocupação com a mudança social o aproxima de Mafalda, na visão defendida ao longo deste trabalho, uma vez que a obra de Quino, como o próprio afirmou, “é aquele pequeno grão de areia com o qual contribuímos para que as coisas mudem”. Sem dúvida Quino não construiu os discursos de Mafalda a esmo, descolado do mundo real. Sua denúncia, através de Mafalda, Susanita, Manolito e tantos outros, construiu sentidos contra-hegemônicos, desafiando as “verdades absolutas”, o silêncio pusilânime, o esquecimento intencional.

Quino jamais se reivindicou comunista e as análises aqui desenvolvidas não tiveram a intenção de enquadrá-lo em uma determinada matriz ideológica. Analisar Mafalda e sua turma, obra de singular riqueza e de grande complexidade, a partir do referencial gramsciano, não é categorizar a produção do artista argentino, tampouco construir uma relação mecânica de causa e efeito, entre as condições de produção de Mafalda e suas características.

Gramsci renovou dialeticamente o marxismo, conferindo atenção especial à cultura, à subjetividade, à educação, ao senso-comum, rompendo com a noção de ideologia como falseamento da realidade[8] e defendendo de forma pujante a necessidade de uma robusta reforma intelectual e moral. Com o marxista sardo, é possível pensar Mafalda como uma personagem contra-hegemônica que mesmo inserida nas décadas de 1960 e 1970 permanece bastante atual, porque pensa o mundo a partir do real, atuando de maneira decisiva (e indignada) nos embates contra as opressões.

Quino não desenha mais Mafalda desde o início da década de 70 – optou por não “terceirizar” as tiras, conforme dito anteriormente. Suas críticas foram feitas há mais de quatro décadas, numa conjuntura de Guerra Fria, num país assolado pelo medo e pela repressão. Infelizmente, diversas questões abordadas pelo cartunista insistem em se fazer presentes, daí a atualidade inegável de Mafalda e seu olhar atento e indignado, sobre este mundo que tem “cada vez mais gente e cada vez menos pessoas”.

            Analisar as histórias em quadrinhos a partir do marxismo é seguir na contramão da grande maioria dos estudos sobre a nona arte, que descontextualizados e a partir de perspectivas atomizantes, desvinculadas da materialidade, legitimam a cultura, a arte, como algo que existe sem agenciamento humano, como dimensões sociais assépticas ideologicamente e alheias às contradições do real.

 

Referências

BIANCHI, Alvaro. O laboratório de Gramsci: filosofia, história e política. São Paulo: Alameda, 2008.

BOTTOMORE, Tom (edit.). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

COUTINHO, Eduardo Granja (org.). Comunicação e contra-hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere / organizador Carlos Nelson Coutinho, Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002 (vol. 3).

GRUPPI, Luciano. O conceito de hegemonia em Gramsci. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1978.

JESUS, Antonio Tavares de. Educação e hegemonia no pensamento de Antonio Gramsci. São Paulo: Cortez, 1989.

LIGUORI, Guido. Roteiros para Gramsci. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007.

MORAES, Denis de. A batalha da mídia: governos progressistas e políticas de comunicação na América Latina e outros ensaios. Rio de Janeiro: Pão e Rosas, 2009.

MOYA, Álvaro de. História da história em quadrinhos. 3ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1994.

QUINO. Toda Mafalda. Rio de Janeiro: Martins Fontes Editora, 2002.

                Mafalda Inédita. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

RAMA, Ângela e VERGUEIRO, Waldomiro (orgs.). Como usar as histórias em quadrinhos em sala de aula. São Paulo: Contexto, 2007.


[1] Mestrando de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

[2] “A hegemonia, como é possível argumentar, não se reduz à legitimação, falsa consciência, ou instrumentalização da massa da população, cujo “senso comum” ou visão do mundo, segundo Gramsci, é composto de vários elementos, alguns dos quais contradizem a ideologia dominante, como aliás grande parte da experiência cotidiana. O que uma ideologia hegemônica, dominante, pode propiciar é uma visão do mundo mais coerente e sistemática que não só influencia a massa da população, como serve como um princípio de organização das instituições sociais.” (Bottomore, 2001, p. 178)

[3] O autor é oriundo do curso de graduação em História da Universidade Federal Fluminense (bacharelado e licenciatura), com ênfase em “História do Poder e das Idéias Políticas” na Idade Contemporânea e recorte em História da América Latina.

[4] Em famosa entrevista, traduzida para o português pelo site www.mafalda.net.

[5] Excepcional não no sentido de uma criança superdotada, mas de uma criança que compreende o mundo e o interpela de uma maneira que não é comum.

[6] Não é possível afirmar se Mafalda sabe ou não o que são ideologias, mas com certeza ela compreende que são coisas “reprimíveis”.

[7] É necessário considerar que a compreensão do racismo (e também do machismo, muito presentes em Mafalda e sua turma) como hegemônicos, nos dias de hoje, gera polêmicas. Ao defender tal concepção, parte-se da concepção marxiana de que as estruturas econômicas mudam, mas as dimensões simbólicas não desaparecem de maneira abrupta. Com certeza o racismo e o machismo eram muito mais visíveis na América Latina colonial do século XVIII, por exemplo, o que não anula sua permanência na contemporaneidade. Daí a defesa de que tais elementos ainda “norteiam” as relações sociais, seja na Argentina ou no Brasil, países onde o racismo e o machismo são bastante fortes, a despeito dos números das pesquisas (sobretudo no Brasil). O machismo, não abordado aqui, é analisado na dissertação já citada.

[8] Segundo Dantas (2008, p. 94), “A ideologia não é, simplesmente, uma representação falsa, manipulada ou distorcida de uma realidade (...). O que nela sempre está em jogo é a naturalização, a normalização e a legitimação das práticas e relações sociais que organizam uma determinada configuração histórica da produção e reprodução social da vida.”

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